Aranha não é macaco e no zoológico veados correm felizes!, por Albio Melchioretto

Albio Melchioretto - colunista do Esporteemidia.com
albio.melchioretto@terra.com.br
@amelchioretto

Aranha não é macaco e no zoológico veados correm felizes!

“A prática de racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão nos termos da lei.” Assim afirma a atual Constituição Federal em seu 5° artigo, inciso XLII. E agora José? O que pretendo comentar nas próximas linhas não é repetir o dito e criar monstros e vítimas, mas olhar e entender porque a mídia insiste nesta fórmula vazia e cansativa digna dos tabloides ingleses: propagandear um fato e fazer em cima dele toda a verdade, se é que a verdade existe. A coluna de hoje se atenta em uma análise para além do trivial. Não pretendo analisar nenhum programa esportivo específico, mas uma fala geral sobre que transformou os noticiários esportivos em páginas policialescas. Mas quero lembrar que este que vos escreve é um bellunese que jamais vai entender de fato o que significou a diáspora afro.

O envolvimento entre o goleiro Aranha do Santos FC e a torcida do Grêmio FPA virou uma grande ação de marketing e caça à bruxa, mas pouco se fez para, de fato, limar o racismo dos estádios. E aqui está, ou deveria estar, a mídia, pois é preciso ir além do para “somos todos macacos” – coisa de marqueteiro. A mídia deveria propor ações que chamem a atenção dos torcedores. Eliminar um clube não é solução. O clube não é sua torcida.  E por isso esta maluquice que muitos da imprensa fazem é apoiar a punição ao clube. Então pergunto: cabe ao clube cercear a possibilidade do torcedor? Se o torcedor comete algum crime a responsabilidade é do clube ou do criminoso? Por que a imprensa, de modo especial a TV aberta, acredita nesta fórmula? Se um racista está em minha casa e insulta um afro-brasileiro sou eu culpado pela imbecilidade alheia? Por isto não consigo entender esta não-crítica da TV aberta ao famigerado STJD e aceitação hipócrita à punição do Grêmio FPA. Tão hipócrita quanto aqueles que embarcaram nesta onda e se fazem pró-negros.  Uma das exceções é Mauro César Pereira, dos canais ESPN e que esteve a comentar o referido jogo. Ao blogar sobre o tema buscou dados sociais para mostrar ao leitor quanto repulsivo é o racismo. Isto se chama compromisso com a verdade e não com a audiência e com o circo que o crime tomou. Aliás, até a GloboNews entrou neste oba-oba desenfreado. Na tentativa de caçar à bruxa a mídia esqueceu que o árbitro Wilton Pereira Sampaio ignora o episódio nada relatando na súmula, fato exposto por Mauro. Após o circo armado, fazer adendos é muito fácil. A irracionalidade passional é inerente a torcida, não a mídia e muito menos para aquele que julga as ações da partida.

Ainda há outro problema. A mídia está por judicializar demais esta situação. Por que ela não repercute a homofobia dos estádios? Vamos caçar os gritos homofóbicos nas torcidas. Vamos juntos também caçar os que meretrizam a progenitora do árbitro. Vamos caçar os que contestam a inteligência do treinador. Peso e medida iguais. Na Copa a torcida brasileira chamou o tempo todo Maradona de cheirador e ninguém diz uma vírgula.  Por que a mídia compra uma briga e varre a sujeira de outras? A polícia que mata mais negros do que brancos também é velada por ela. Poucas vozes globais se aproximam de Caco Barcellos ao denunciar a polícia racista e homofóbica que “nos protege”. Não estou defendendo a liberdade de racistas nos estádios, mas estou a criticar as escolhas distorcidas que são feitas. E me incomoda em ver nas redes sociais babacas afirmarem que seria justo esta loira racista ser estuprada por um negro. Então o contrário pode? Este falatório todo é desproporcional a real vivencia medíocre de um racismo social sempre presente. Vivemos numa sociedade doente acobertada por um jornalismo medíocre que não tem coragem de noticiar os imbecis que querem fazer justiça com as próprias mãos. O racismo presente no futebol é o mesmo presente nesta sociedade patológica. A democracia racial é uma grande mentira. Vide quantos negros são comentaristas de futebol.

O Brasil não é um pais de tolerantes. O Brasil é um país que se veste numa turba moralista e acha que o politicamente correto é uma ação para justificar momentos e somente momentos. Se fôssemos tolerantes não haveria linchamento virtual. O politicamente correto que a mídia insiste é quase uma expressão nazi-social. E por fim quero terminar citando a professora Joseli Mendonça, do departamento de História da Unicamp: “Quando a escravidão deixou de ser uma instituição legal, o racismo avassalador passou a predominar como elemento de exclusão”, e viva o 7 de setembro, 192º aniversário da independência do Brasil.


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