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Albio Melchioretto #85: Futebol e midia: um caso de promiscuidade

Colunista analisa a mudança dos jogos da TV aberta do domingo para o último sábado (Foto: Reprodução)
A mídia interfere diretamente na história do futebol
 
Não quero escrever sobre minhas posições políticas. Elas estão mostradas nas mídias sociais que frequento. Quero falar de um fenômeno que não me parece inocente: o adiantamento dos jogos da televisão aberta do domingo para o sábado. Entendo e concordo com a tese que as decisões políticas, a independer do teor e da capacidade do parlamento, são mais importantes que o futebol em si, ou qualquer outro esporte. Mas, no domingo não foi apenas o futebol, foi a manifestação cultural em xeque por conta da prioridade televisiva. O problema que vejo, é que a mídia, de maneira geral, usa um argumento e todos repetem, transformando em tese, sem pensar em atos reflexivos. Por que é tão fácil aceitar a troca de horário? Qual o interesse da televisão nisto? O momento, a audiência ou interesses comerciais ou há uma interesse sistemático nas decisões políticas?

É curioso pensar isto, porque em temos há uma inversão completa de papel. Durante uma Copa do Mundo não há pauta para além da copa. O mesmo expediente repete-se nas Olimpíadas. Agora temos o efeito reverso. O problema não é o foco, mas o direcionamento de pauta única. Com isso constato uma relação de promiscuidade entre a mídia e o factual. Um bom exemplo, ao olhar nas décadas passadas, foram os campeonatos brasileiros dos anos de 1970. Inchados por conta dos interesses dos militares e o apoio dos exibidores em propagandear a ideia de sentimento nacionalizado. Nascia a ideia da “pátria de chuteiras”. As chuteiras ficam no pé, e é para lá que colocamos o sentido de pátria através da cobertura sensacionalista que a mídia conservadora vem promovendo. E a tese ganhou um grande impacto com a conquista do Tri e até hoje acredita-se que somos a pátria de chuteiras. Com esta falsa ideia construída há quem analise os 7x1 como acidente e não como reflexo. Parece que estou a falar de coisas distintas, da votação a eliminação da Copa. Mas elas estão interligadas. É a maneira irresponsável como o factual é tratado, sem um aprofundamento do pensar, apenas como encaixe de grade. Encaixe que permite trocar um dia de jogo em nome do televisionado “ao vivo”.

Albio Melchioretto - colunista do Esporteemidia.com
albio.melchioretto@gmail.com
@amelchioretto
Mas esta relação de fragilidade não é coisa da história imediata apenas. Ao vasculhar as páginas da criação do selecionado Brasileira (um bom exemplo de promiscuidade entre mídia e factual) encontramos a seleção em 1914 construída apenas para atender uma demanda. A FBE (Federação Brasileira dos Esportes) trabalhou para a criação de uma seleção a fim de atender o critério para participar dos jogos olímpicos de 1916, principal torneio de seleções da época. Não há criação para o esporte, mas para o fato e o esporte foi reduzido a interesses externos. Ir para os jogos para mostrar força de local. Como agora é deslocado de data para dar conta de um momento vendendo uma ideia de mídia politizada. Vivenciamos um momento de desnacionalização da direção política como o descrédito da atividade política e isto, ao lado de uma poder midiático controlador das coisas do futebol. A relação entre mídia, política e futebol, no Brasil atual é uma relação da reprodução do que há de mais perverso no capitalismo.

A perversidade e a promiscuidade foram retratas também na criação da Copa União em 1987. Quando os clubes em protesto aos regulamentos esbaforidos e inchados do Brasileirão resolveram criar uma liga independente da confederação, vendendo os direitos a Rede Globo, e esta, propagandeia a competição à luz da nova democracia, mostrando pela primeira vez uma competição com prioridade para o “ao vivo”. Da Copa União, a CBF cria a Copa do Brasil, não para competir, mas para atender os excluídos da Copa União com os campeões de todos os estados e mais os seis vices de maior média de público. Para os clubes a mídia foi importante diante da necessidade de criar e vender imagens. Enquanto que a Copa do Brasil foi um produto de ligação nacional para valorizar a confederação e as federações enfraquecidas. Para finalizar pergunto: que imagem é construída no adiantamento de partidas?

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