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Albio Melchioretto #87: Desabafo diante do descaso

Colunista defende que a imprensa esportiva deveria ter feito cobertura da tragédia da ciclovia no Rio de Janeiro por envolver questões circundantes a Olimpíada (Foto: Reprodução)
A pensadora alemã Hannah Arendt no texto Eichamann em Jerusalém descreve o comportamento abjeto de Adolf Eichamann durante seu julgamento no pós-guerra. Arendt acompanhou de perto todos os passos de Eichamann como correspondente do jornal norte-americano The New Yorker, em 1961. Na obra Arendt questiona como a grande massa burocrática vive uma vida de superficialidade reflexiva sem dar razão às ações do cotidiano. A irreflexão tem como consequência grave a banalização do mal, e a partir dela o indivíduo deixa de reparar nos fatos e desqualifica o outro.

O fato que chama a atenção da coluna ao longo da semana foi a queda da ciclovia carioca. Cidade olímpica. Segundo O Globo, após o grave acidente, dezenas de pessoas estavam ao redor dos corpos das vítimas estendidos na areia de São Conrado. Ao mesmo tempo que imperava um silêncio respeitoso às famílias, alguns garotos faziam selfies em frente aos corpos. Após algumas horas de espera da família para retirada dos corpos, a praia tomou seu ritmo normal. As pessoas que chegavam a São Conrado estendiam cadeiras e guarda-sóis ao redor das vítimas e a vida praiana seguiu seu fluxo.

Volto a discutir pela terceira semana consecutiva questões da mídia esportiva, de maneira geral, relacionados a grande massa burocrática, para usar uma expressão de Arendt. O faço pelo excesso da mídia geral e pela quase ausência da mídia esportiva na cobertura da tragédia. A mídia esportiva tem a obrigação de cobrir este grave acidente por envolver questões circundantes a Olimpíada do Rio de Janeiro. A banalidade da feitura dos jogos se estende a banalidade da cobertura. Há uma preocupação maior com a quantidade de canais ao invés da qualidade do que será oferecido. Então, uso uma velha questão: qual o papel da mídia esportiva? Para saber qual é seu papel, vou retroceder na questão e perguntar: onde a mídia esportiva deveria estar? Seu locus está no factual ou no pensar? Se for apenas o factual mostrar gols e placares seria o suficiente. No auge de uma gestão do circense a função do comentarista é totalmente desnecessária.

Albio Melchioretto - colunista do Esporteemidia.com
albio.melchioretto@gmail.com
@amelchioretto
Mas o que estou a vivenciar é a mídia esportiva longe do factual e distante também da reflexão. Há uma vocação para o circense onde a promoção da audiência é composta por uma grande massa burocrática que é indiferença da tomada de posição. A queda da ciclovia carioca não foi explorada pela mídia esportiva, com raras exceções em comentários pontuais. Ela comportou-se, tal qual, os praianos em volta dos corpos. Enquanto o festival de gols e a música do Fantástico forem mais importantes que o contexto, acompanharemos a desqualificação do outro. Atitudes de irreflexão serão responsáveis pela morte do esporte olímpico no Brasil. A vivência do esporte passa pela reflexão das estruturas e não apenas pela mostragem de resultados.

Passada a explosão do factual, não haverá apuração, julgamento e condenados. O mal que impede o sucesso desta terra é banalizado e vamos novamente nos alienar com um clássico no Maracanã reaberto enquanto algumas famílias choram o luto de seus entes. Banalizamos o mal no esporte, na política, no trabalho, na vida...

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