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Albio Melchioretto #88: Qual crise atingiu a Band?

Colunista comenta a desistência a Band em seguir com a parceria no futebol com a Globo (Foto: Reprodução)
A notícia que mexeu com a mídia esportiva ao longo da semana passada foi o anúncio do término das transmissões do Brasileirão pela Rede Bandeirantes. Quero comentar algumas especulações acerca do tema. Para fazer isto, trago uma frase de Michel Foucault, “sob que forma, sem seu ato de dizer a verdade, o indivíduo se constitui e é constituído pelos outros como sujeito que pronuncia a verdade, sob que forma se apresenta, aos seus próprios olhos e aos olhos do outros, quem diz a verdade [?]”. Há um indivíduo no objeto destas linhas, a BAND, e ele está a pronunciar uma fala de verdade, a desistência do Brasileirão. A frase de Foucault me fez pensar na verdade que existe nas linhas do comunicado da Globo acerca da desistência da BAND. A Globo que funcionou como pombo correio. Há verdade nas falas, mas quais são as verdades que não estão ditas e que também estão presentes? Não há coincidências no mudo dos negócios. Um dia é dado como crise a quebra de contrato da Band com a Rede Globo, noutro dia é publicado a entrada do grupo Turner (que controla os canais Esporte Interativo) como a aquisição de 30% do canal do Morumbi.

Mesmo Turner que já esteve envolvido em diversas especulações com a família Saad. Então, amigo leitor, que verdade é apresentada pelos envolvidos e qual verdade é constituída com a soma dos fatos?

Foi uma década de parceria que é findada com uma simples nota. É assim simples?

Não entendo esta crise econômica vivida pelo Brasil. Aliás, há crise? Filas em shopping e nos mercados me dão uma termômeno de consumo e esquizofrenia. Temos uma inflação anual que está oito vezes menor que foi no mês auge da crise do governo Collor. Nosso índice de desemprego, dito alto pela grande mídia, é menor que a maioria dos países da Europa. Se olharmos para o futebol, os clubes (segundo Guilherme Sete e Marcel Rizzo, na Folha de S. Paulo) tiveram um aumento de 19% no faturamento geral, e 28% quando analisada apenas a receita de televisão. Em que universo estes números representam uma crise? Se a não há crise no futebol, como pode haver no canal transmissor?

Albio Melchioretto - colunista do Esporteemidia.com
albio.melchioretto@gmail.com
@amelchioretto
Ao mesmo tempo que o faturamento aumenta, o endividamento dos clubes também. Assim mostra o blog Balanço da Bola ao analisar a questão do Profut. Mas diante da crise, o canal do Morumbi tem aumentando os investimentos na programação artística e tem recorde de faturamento com seu principal reality show. E claro, alto salário com as estrelas da casa. Enquanto isso, a chegada da Turner ao canal marca uma injeção de projetos. Eu aponto como ponto crucial este último fator, a chegada dos americanos, como rompimento com o Grupo Globo.

A Rede Globo tende a fortificar suas marcas com esta saída, há um grande ganho. O número de jogos ao vivo na televisão aberta nada muda. Continuará com três televisionamentos e uma opção por rodada. Ganhará o assinante de televisão. O SporTV passará a mostrar a rodada da segunda-feira (como ficará o Bem Amigos?). O ganho está na fortificação das marcas SporTV e Premiere que ganharão maior peso ao torcedor que buscará acompanhar seu clube abalado pela ausência de um tradicional exibidor. Ganhará a marca Globosat, como grande vitrine até a temporada de 2018 quando entrará em cena o EI MAXX (da Turner, parceira da Band). Até lá, haverá uma construção de identidade com o espectador que acostumar-se- á com esta janela. Uma marca forte sufoca uma nascida. Posso estar exagerando, mas no universo onde verdades são construídas e fatos recontados sob a ótica de uma máquina, por que não justificar diversos pontos?

Dica cultural da semana:
FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.


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