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Albio Melchioretto #89: Paixão e investigação

Colunista lembra da Revista Placar e o famoso 'Tabelão' (Foto: Reprodução)
Hoje não vou trazer nenhum filósofo para inspirar as primeiras linhas, mas quero mencionar você, caro leitor, meu pensador mais próximo. A coluna passada, desenhei um questionamento sobre o não-brasileirão pela BAND e ela provou vários comentários. A coluna não quer ser um espaço de verdade dogmatizada. Ela tem a pretensão de questionar e problematizar a mídia esportiva, para tanto, é imprescindível o debate de ideias e por regra deste que vos escreve, jamais debater pessoas. Volto um pouco no tempo e lembro de quando as Redes Sociais Virtuais se popularizaram, imaginava, em minha inocência, que o ciberespaço seria um locus para o debate, mas bipolarização pobre de ideias e ideais que o Brasil vive, mostrou-me que estou errado. O que vejo são imposição de ideias e distanciamento do debate. Será que minha reflexão está no caminho certo?

Muitas vezes diante do caos falante do ciberespaço recorro ainda a “velhas” mídias para informar-me, como o bom radinho a pilha e os jornais que sempre rendem uma boa conversa na banca. Quando criança, de Ensino Fundamental, minha principal fonte de informação do futebol era a mídia impressa. Sempre que possível comprava uma edição da Revista Placar. Em momentos de menos dinheiro, acordava cedo, para ouvir uma rádio local e anotar no ‘caderno de resultados’ os placares da rodada. Num universo sem internet, as informações eram reduzidas a poucas fontes. Um caderno de resultados e a Placar, por conta do famoso ‘Tabelão’. Acompanhado de muito papel, passava as horas no ônibus escolar discutindo futebol em uma mesa remenda particular. Éramos cinco amantes da bola, um bugrino que virou a casaca para o São Paulo, um colega flamenguista, outra vascaíno acompanhado de um galo-mineiro e eu, corinthiano. Todos carregavam seus apontamentos, revistas, jornais. Cada semana um comprava o impresso e partilhava, assim enriquecíamos as conversas futebolísticas.

Albio Melchioretto - colunista do Esporteemidia.com
albio.melchioretto@gmail.com
@amelchioretto
Conto esta história porque vivi algo ao longo da semana que trouxe a memória presente a lembrança de outrora. Parei numa conveniência e de longe vi um livreto de capa verde com o título ‘Tabelão de bolso Brasileirão 2016’. A capa lembrou da infância. Fui a estante, folheei e no mergulho tênue entre passado e presente comprei a edição. Parece estranho, mas em tempos de internet publicações deste tipo ainda existem. Ganham força em época de início de competições. Perguntei ao balconista e ele confirmou que este tipo de publicação vende muito. Era o terceiro naquela tarde que adquiria o livreto. O caderno de resultado parece sobreviver as longas tabelas virtuais de telas de vidro. O torcedor de sofá ainda divide espaço com o torcedor de apontamentos. Sei do saudosismo todo, mas, a paixão ainda move muita coisa no futebol, como também, a mídia impressa em tempos de virtualização. Se os jornais, como já escrevi na coluna #61, fossem além do factual, haveria um consumo maior. Uma proposta simples, papel jornal com tabelão ainda vende, quiçá com conteúdo!

No mesmo dia, ao chegar em casa, conectei-me as informações quando deparo-me com o New York Times, numa longa reportagem investigativa apontando as ações do Dr. Rodchnkov. Num enredo que mais parece filme, Rebecca Ruiz e Michael Schwirtz mostram a corrupção e o doping do esporte russo durante os jogos de Socchi. Drogas, morte e perseguição patrocinadas pelo Kremlin dão o tom dos fatos.

Apresentado as duas situações de uma mesma tarde questiono novamente o papel da mídia escrita. A mídia não pode ter limites, nem ficar acomodada como um torcedor de sofá, ela tem uma posição importante. Se por um lado é interessante o saudosismo de anotações, por outro são necessárias reportagens, como do NY Times. Sinto muita falta do jornalismo investigativo no esporte, como falei a duas semanas, na coluna #87. São outros personagens, mas é o mesmo problema.

Torcer e apontar resultados é sinônimo da paixão, mas investigar é a possibilidade de desvelar toda sujeira que existe atrás daqueles que querem manipular nossa paixão. 

Dica cultural da semana:
Russian Insider, http://nyti.ms/1WsP8JE, por Rebecca Ruiz e Michael Schwirtz.


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