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Futebol: o show de Trumann, por Albio Melchioretto #38

Colunista fala da influência da TV no futebol
Até os anos de 1970 havia uma grande discussão do quão prejudicial poderia ser a transmissão televisiva para o futebol. Abominava-se as transmissões ao vivo, porque poderiam atrapalhar as lotações nos estádios. Lembro-me de ter lido muitas vezes histórias do campeonato carioca, que os cartolas de lá (nem sempre inteligentes, vide a atualidade), foram pioneiros em assinar contratos que permitiam futebol em vídeo-tape no mesmo dia da transmissão, uma grande avanço. A continuidade do contrato da televisão dependia do público nos estádios. Algumas federações resistiram o quanto puderam para não mostrar, pois a televisão poderia estragar o produto. Os anos passaram e hoje alguém consegue imaginar o futebol ‘não-ao-vivo’ na televisão?

O que vemos agora é uma influência tão grande que a existência do futebol não pode ser pensada sem a televisão. A televisão ‘abençoa’ os horários, congrega as tabelas e ritualiza sua existência em verdadeiros cânones religiosos. Exemplo? Hoje não vou falar dos exemplos brasileiros, e sim, olhar a grama do vizinho, neste caso, mais verde. A última rodada da Libertadores nos é um bom exemplo. O regulamento dela faz o confronto ser um cruzamento de campanhas. O problema está na última rodada que não é simultânea. Assim, alguns equipe entram beneficiadas ao ponto de poder escolher o adversário. E este fato dá margem a comentários, como a atuação do juiz em São Paulo x Corinthians; como também olhar para os números do Corinthians e ver que ele não finalizara no segundo tempo sabendo (ou não) que o adversário seria o Guarani do Paraguai se assim mantivesse o placar. Talvez não houve malandragem, não há provas para afirmar, mas a questão é que o interesse da televisão em ter pelejas espalhadas pela programação ao longo de uma jornada tripla permite tal interpretação. Por que não montar um esquema de sorteio a moda UEFA para privilegiar uma grade espalhada? Uma competição que presa pela transparência evita margem para comentários sobre sua honestidade. Quem perde é a própria televisão que tem seu produto depreciado.

Outro exemplo é o anúncio da FIFA que a detentora dos direitos de transmissão para os Estados Unidos da copa de 2026 será o canal Fox Sports. De acordo com a agência internacional de notícias Bloomberg o acordo foi feito para compensar a mudança no calendário da edição de 2022 que não será no tradicional período entre temporadas, mas que será no fim do ano. A ESPN não foi sequer avisada, de acordo com a agência. O problema de uma copa deslocada é bater de frente com a temporada da NFL (maior audiência) e NBA (quarta maior audiência) na briga pela audiência. Segundo Jérôme Valcke: “foi tudo feito dentro dos padrões, é bom para FIFA e é bom para FOX”. E os demais? Se diante de todos estes exemplos alguém ainda não se convencer que a televisão é detentora e constrói um rizoma com o futebol não vejo argumento melhor para mostrar que estes. O show sustenta-se apenas pela televisão. O show de Trumann continua.

Albio Melchioretto - colunista do Esporteemidia.com
albio.melchioretto@gmail.com
@amelchioretto







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