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Os donos da bola, a invasão do Tio Sam e a crise, por Albio Melchioretto #35

Esporteemidia.com por Albio Melchioretto

Colunista fala da invasão do 'soccer' na TV brasileira
Na coluna de hoje quero tratar de dois assuntos diferentes. O primeiro deles retomar a discussão que venho trazendo há duas semanas que é o olhar sobre os programas de debate esportivo e o segundo assunto comentar a invasão do soccer em nossas telas. Chamarei o futebol da terra do Tio Sam de soccer por não confundir com o football da bola oval. O filósofo político Nicolau Maquiavel na obra O Príncipe (1513) comenta um período de crise vivido na Europa e aponta possibilidades políticas de superá-la. A partir da obra é possível afirmar que crise não é um acontecimento dado da noite para o dia. O nascer de uma crise é construída através de um período com vários acontecimentos. Crise não possui apenas um significado negativo, ela pode ser interpretada como uma possibilidade de mudanças, sair de um estado A para adentrar no estado B, não de maneira abrupta, mas construindo e vivenciado possibilidades através de uma cadeia de eventos.

O dono da bola. No futebol de rua, o dono da bola era o garoto que sempre tinha lugar no time, afinal, era ele o provedor da gorduchinha. Sem a bola não haveria brincadeira. Poderia ser o pior da turma, mas sua classificação social era garantia de jogo e diversão. Há algumas semanas, aqui no Esporte e Mídia, venho comentando sobre os programas de mesa que falam de futebol. O canal Bandeirantes parece estar passando por dificuldades e corte de pessoal. Um dos cortes está a atingir a versão regionalizada dos “Donos da Bola”. Parece que havia um time em campo que deixou o dono da brincadeira de fora. “Tá na Tela" de Luiz Bacci, o "Sabe ou Não Sabe" e o "Agora é Tarde” já foram. Os esportivos e jornalistas da filial carioca parece estar com os dias contados. Um esgotamento da fórmula? Penso que esta hipótese não pode ser refutada, vários canais já os extinguiram. CNT, Ulbra TV e TBC News nos últimos tempos e canais tradicionais em outras datas. Uma questão para pensar. Mas o que existe para além da dita crise na Band? O canal vem mostrando uma cadeia de eventos e de mudanças que geram certa instabilidade. A extinção de um programa que estava a ganhar espaço por vários estados mostram tal instabilidade. Qual a direção que a Band quer dar para sua grade? Junto ao momento de crise paradigmática é preciso considerar a resposta financeira e publicitária que tais programas trazem. Até que ponto é justificável a manutenção de um parlatório esportivo diário? Será que o formato dos Donos da Bola justifica-se na mídia brasileira atual? Há claro um esgotamento na TV aberta, enquanto que a TV paga caminha na direção oposta.

A Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos deixou um legado bem claro, a construção do futebol profissional, dentro e fora das linhas. O Soccer na terra do Tio Sam seguiu o caminho cultural dos americanos. Fórmula de disputa e modo organizacional a moda estadunidense. O soccer fortaleceu-se com a Copa e dois anos mais tarde fora a celebrada a primeira temporada da MLS. Além desta existem outras ligas menores. Os representantes do país nos torneios continentais saem da MLS. Há tempos os canais ESPN mostravam uma partida aqui e outra acolá. Este ano estamos presenciando uma explosão de partidas nos canais ESPN e também SPORTV. Será resultado do efeito Kaká e Ronaldo, nos respectivos Orlando City (MLS) e Fort Lauderdale Strikers (NASL)? Claro que nomes de efeito trazem retorno de mídia, mas poderíamos pensar além... a MSL tem média de público maior que a média do Brasileirão. Os primeiros jogos do Orlando City superam os 60 mil de público cada. Na semana que passou, para chegar a 60 mil foi preciso somar os quatro maiores públicos daqui, incluindo jogos de libertadores. Para efeito de comentário o clássico River versus Piauí registrou pífios 160 torcedores pela rodada do Piauião. Podemos ou não podemos aprender a fazer soccer com os profissionais do Tio Sam. São tão bons que fazem sucesso com jogadores completamente desconhecidos de nossa mídia, quem dirá com renomes como Kaká. Mas, há outra questão incomoda-me, nosso futebol está em crise para pensar tanto assim no soccer?
 
Albio Melchioretto - colunista do Esporteemidia.com
albio.melchioretto@gmail.com
@amelchioretto





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