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| Foto: Reprodução/CazéTV |
A Copa do Mundo de 2026 ficará marcada na história da mídia brasileira por uma transformação agressiva no consumo de mídia esportiva, fruto de um grande ciclo. A CazéTV pulverizou seu próprio recorde mundial, atingindo o pico impressionante de 18,3 milhões de dispositivos conectados simultaneamente durante a vitória do Brasil sobre a Escócia. O canal do grupo da LiveMode que parte do YouTube como maior janela de transmissão, além de estar com jogos da competição nos serviços PrimeVídeo e Disney+. Em um intervalo de apenas três rodadas na fase de grupos, o canal viu sua audiência saltar mais de 45%, consolidando-se como uma potência que desafia a hegemonia da TV tradicional.
Caminhando pela cidade, todos os televisores que vi no comércio, estavam conectados a CazéTV. Nenhum na TV aberta. Afinal de contas, basta o receptor e um ponto de acesso a internet. A TV aberta ainda necessita de antenas. Em casa tenho optado pela transmissão aberta, Globo e SBT, via satélite por causa do delay, mas nos jogos exclusivos recorri a CazéTV.
Contudo, por trás da celebração da "democratização do acesso", esconde-se uma engrenagem perversa: um modelo de negócio sustentado quase inteiramente pela onipresença das casas de apostas (as "bets"), que ameaça transformar o torcedor em um mero ativo financeiro e o esporte em um pano de fundo para o azar. A crítica que farei, não é exclusiva a CazéTV, porque todas as emissoras fazem desta forma, mas, sobre os perigos que as BETs representam.
O sucesso da CazéTV é inegável. Oferecer 104 jogos em 4K, gratuitamente e sem a necessidade de assinaturas caras, parece o sonho de qualquer fã de futebol. Mas, não há almoço grátis. Se você não paga pelo produto, o produto é você — ou, neste caso, o seu saldo bancário. O canal tornou-se o epicentro de um debate ético sobre os limites da publicidade ao integrar anúncios de apostas de forma tão orgânica que a fronteira entre o comentário esportivo e o apelo comercial desapareceu. Fronteira, muitas vezes invisível.
Enquanto emissoras tradicionais como Globo e SBT também possuem parcerias com bets, a CazéTV elevou o tom. O problema não reside apenas na presença do anunciante, mas no formato predatório. Narradores e comentaristas passaram a vocalizar "odds" em tempo real, utilizando lances iminentes para criar um senso de urgência artificial. Quando um narrador interrompe a análise tática para dizer que a cotação para um gol de Vini Jr. "acabou de subir", ele não está informando o público; ele está induzindo o espectador ao erro sobre as chances reais de ganho no calor da emoção. E não há enriquecimento com as bets. Para que a roda gire, a “casa sempre ganha”.
A estratégia da CazéTV de focar em um público que busca o acesso gratuito não é coincidência, mas uma escolha demográfica que ignora a responsabilidade social. Dados do Instituto DataSenado mostram que 52% dos apostadores brasileiros recebem até dois salários mínimos. Mais alarmante é o cenário econômico do país: em março de 2026, o percentual de famílias endividadas atingiu o recorde histórico de 80,4%.
Estamos diante de uma tempestade perfeita. De um lado, milhões de brasileiros lutando contra dívidas; do outro, transmissões "gratuitas" que bombardeiam esse público com a promessa ilusória de lucro fácil e "turbinaços de odds". Até há falas “em letras miúdas” alertando o problema das apostas. Mas isso não é suficiente para enfrentar esta epidemia. Para muitos, a aposta deixa de ser um entretenimento para ser vista como uma tábua de salvação financeira. Uma visão que é expressamente proibida pela legislação brasileira e pelas diretrizes do Ministério da Fazenda, que vedam campanhas que apresentem a aposta como caminho para o êxito pessoal ou financeiro.
Para além do impacto no bolso, as bets estão corroendo a própria natureza do esporte. O futebol, em sua essência, é sobre a incerteza do jogo, o talento e a paixão. Quando a transmissão é interrompida por mensagens de urgência para apostar "agora", o jogo em si torna-se secundário. A experiência do espectador é degradada; ele deixa de torcer pelo lance para torcer pelo bilhete.
Essa agressividade publicitária não passou despercebida pelos órgãos de controle. O CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) agiu com rigor incomum ao conceder uma liminar para sustar imediatamente os anúncios de casas como KTO, Betnacional e Bet365 durante as transmissões ao vivo da CazéTV. O órgão identificou problemas graves, como a falta de identificação clara de que certas falas eram publicidade e o uso de gatilhos emocionais para estimular decisões impulsivas. O fato de o CONAR não ter esperado o rito comum para agir demonstra a gravidade da infração ética cometida em nome do lucro imediato.
Pressionada pela regulação e por investigações da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), a CazéTV emitiu uma nota afirmando que adotará um padrão "mais específico e conservador" para as ativações de marcas de apostas. O canal prometeu retornar ao formato tradicional de publicidade, preservando a espontaneidade dos seus apresentadores para outros segmentos. É um reconhecimento tardio, mas necessário, de que o "Modo CazéTV" cruzou a linha da irresponsabilidade ao lidar com um setor tão sensível.
O sucesso de audiência do canal prova que há um desejo imenso do público por novos formatos e acesso facilitado. No entanto, esse sucesso não pode servir de salvo-conduto para a exploração da vulnerabilidade alheia. O Congresso Nacional já sinaliza com restrições ainda mais severas, incluindo a proibição do uso de influenciadores e até o banimento total de marketing de bets em um futuro próximo. Particularmente defendo a radicalidade da extinção.
Qual é o custo real de assistir a um jogo de graça? Se o preço é a saúde financeira de milhões de famílias e a integridade da nossa paixão nacional, talvez a conta esteja saindo cara demais.
A coluna agradece o bom comentário de AquiEGaloFC na coluna #458
Sobre o autor
Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto. Doutor em Desenvolvimento Regional. Professor pesquisador ligado a Faculdade SENAC Blumenau, editor do podcast, Tecendo Ideias (Top 100 Education Podcasts) e escreve no Substack sobre o futebol catarinense (https://albiofabianmelchioretto.substack.com/).

